Matéria
Carta aos Ativistas da AIDS
XIV Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS
21 a 23 de novembro de 2008, Rio de Janeiro
Ativistas da AIDS,
Estou aqui em nome de Gérman Donoso, Herbert Daniel, José Augusto Zeca Nogueira, Cláudio Mesquita, fundadores comigo do Grupo pela Valorização, Integração e Dignidade dos Doentes de AIDS... que morreram em combate.
A minha presença, falando pra vocês de viva voz, tem vários sentidos. Antes de tudo e antes de mim, estão o meu corpo, a minha subjetividade e a minha luta, revirados mas fortalecidos depois de dezenove anos de fundação do Grupo Pela Vidda, de vinte e um anos de contaminação pelo HIV, de nove anos de tratamento, e muitas marchas e contramarchas na luta pelos direitos humanos, incluindo a defesa dos interesses dos soropositivos. Quando a gente é uma figura pública, veste a camisa e dá a cara a tapa, não há mais volta ao comodismo. Quando abrimos a porta e deixamos a vida entrar, ela traz consigo uma força enorme para nutrir nossos desejos.
É preciso estar sempre atento para não se deixar levar pelo pessimismo e principalmente pelos nossos próprios interesses. A AIDS não é um problema meu, mas da Humanidade, e por isso é um problema do outro. Muita gente pensa assim e larga a mão. Esquece que fomos feitos para o encontro com o outro e não o seu esquecimento. A frase é capciosa: a AIDS é um problema do outro.
Somos 600 mil infectados no Brasil e 11 mil mortos por ano. A AIDS não é problema meu, é um problema do outro. Entretanto, a luta pelos direitos humanos nos ensinou que o outro é que interessa, por isso sou tanto mais forte quanto mais ativa é minha responsabilidade para com o outro. Salvar o outro da morte, independente de dever ser assim ou não, de termos ou não a intenção - salvar o outro é imperativo! É o motor da minha luta contra a AIDS.
Quantos de vocês se esconderam? Quantos de vocês aplaudiram, sem críticas, o programa de distribuição de medicamentos do Governo Brasileiro? Quantos de vocês deixaram de se precaver contra a contaminação do HIV, e foram à igreja, agradecer a graça alcançada em mais um ano de vida? Eu desejo que não esqueçam o seu semelhante.
Fico estarrecido, e até certo ponto feliz por ainda ser útil com o meu protesto, ao ver o atraso nas consciências. Quando os padres e as freiras distribuem camisinhas ouço: Ó!!!! QUE AVANÇO!!! Quando a Fundação Oswaldo Cruz produz Efavirenz de patente quebrada dizem: Ó!!! QUE AVANÇO!!! Quando o Fórum de Ongs AIDS se reúne, a duras penas, para discutir propostas, noções e recomendações é feérico: Ó!!! QUE AVANÇO!!! Estamos na idade da pedra em relação ao que nós do Grupo Pela Vidda pretendíamos para o futuro. Nós queríamos que a vida valesse a pena. Não apenas a vida de quem está doente, mas a vida de todos nós, cidadãos vivos.
Fizeram-se as leis, e os positivos podem brigar na justiça. Distribui-se coquetéis para 180 mil assistidos, embora não haja medicamentos para as doenças oportunistas. Proliferam os grupos de ajuda, mas muito poucos estão livres do preconceito, da discriminação, do desemprego, e da desinformação.
Fico estarrecido quando vejo na internet grupos de reunião de positivos heteros, que discriminam bissexuais ou homossexuais. Não precisamos de preceitos morais ou religiosos, mas de ética, de desprendimento, de calor humano, de amor – já ouviram falar?
Fico estarrecido quando sei de postos de saúde desabastecidos, de hospitais sem leitos. E quando exigem o preenchimento de um formulário com o perfil detalhado dos inscritos no programa de assistência, como se fosse necessário rotular cada paciente antes de salvar-lhe a vida, independentemente do controle epidêmico. Os soropositivos continuam intimidados, dentro e fora de casa, como há 20 anos.
Fico estarrecido ao ouvir relatos de funcionários capazes, colocados pelas empresas em funções burocráticas, sem promoção, e com regime de cargos e salários diferenciado. Ou chefes chamando na sala pra dizer, com um cinismo carinhoso: Por que não se aposenta e vai se cuidar?
Os jovens não usam camisinha! Os jovens estão ignorando a vida! E isso é um reflexo da despolitização da sociedade, do desmonte da consciência crítica dos cidadãos. O que nós, ativista da AIDS estamos fazendo a respeito? Vendendo barato nossas capacidades num blá-blá-blá costumeiro, protocolar e superficial. Eu diria PALIATIVO!
Convoco-os a saírem às ruas em grandes passeatas. Usem o amor como matéria-prima, o inconformismo como valor de troca e unam as suas vidas ameaçadas. Ativismo verdadeiro! A indignação faz bem à saúde! Perturbem, retirem as máscaras e as carapuças. Ano passado, o ministro Temporão fez um acordo com a Arquidiocese do Rio para badalar suas plataformas no Cristo Redentor. Louvável! Mas consentiu em não falar de prevenção, como pediu o arcebispo. Seja feita a Vossa Vontade.
Enquanto as personalidades convidadas pelo ministério subiam de bondinho, o Grupo Pela Vidda fazia uma manifestação em Copacabana com alguns cartazes. Fui lá e falei: Márcio, Mara, vocês vão subir comigo o Corcovado! Pegamos táxis, cartazes, e chegamos na estação do Cosme Velho a tempo de arrancar as máscaras e as carapuças. As lindas meninas de salão de automóveis que recebiam os artistas e os intelectuais deixaram de sorrir quando os soropositivos apareceram, vestidos de preto. Fomos em frente, distribuímos camisinhas, convocamos os líderes religiosos, instigamos o ministro e, no fim, os guardas estavam nos ajudando a passar os folhetos de mão em mão. Dom Eusébio ficou contrafeito, naturalmente, mas ele foi respeitado, como convém.
E O QUE VAMOS FAZER DAQUI A UMA SEMANA, NO DIA MUNDIAL DE LUTA CONTRA A AIDS? Já sei, pequenas manifestações de novo, ou mesmo nada. Nós estamos passando atestado de omissos... Basta de comodismo! A AIDS ainda mata! Aliás, mata muito mais que antes de 1996, ano dos coquetéis e, se não assumirmos novas posturas, matará cada vez mais! Uma das coisas que tenho feito, ao longo desses 20 anos, é contar os corpos de pessoas que foram entregues às moscas pela indiferença e pela negligência, próprias e alheias?
Antes que digam, não estou pregando uma revolução! Mas o despertar das consciências, a evolução da luta, sem hipocrisia. Sabemos o que quer o sistema capitalista moderno-colonial, como denominou o geógrafo Porto-Gonçalvez, ou o que está por trás da tirania informacional deste mesmo sistema, como disse outro geógrafo, Milton Santos: almas apaziguadas, confusão dos espíritos, enquanto aumentam assustadoramente no mundo inteiro as violações dos direitos humanos. Ah, mas os soropositivos não têm nada a ver com o trabalho escravo, as torturas, os genocídios, a fome! Se vocês não enxergam a universalidade da luta pelos direitos humanos, ou não querem enxergar por comodismo ou corporativismo positivo, não merecem mais ser chamados de ativistas.
Sim, vamos para as ruas curtir a vida, aproveitando para experimentar um pouco de ativismo salutar. Se não topam, fiquem em casa engolindo as pílulas e os sapos. E aproveitem para pensar o que têm feito de útil para a Humanidade, que seja apenas amar verdadeiramente. Vinte anos depois de tomar a decisão de me expor, eu dou-lhes um conselho: é melhor para a raça humana que vocês acordem do sono da sobrevida. E reúnam-se, em nome da cidadania! Temos um longo caminho a percorrer.
VIVA A VIDA!
Bruno Cattoni